Auta de Souza nasceu em 12 de setembro de 1876, em Macaíba, Rio Grande do Norte, filha de Elói Castriciano de Souza e Henriqueta Leopoldina Rodrigues. Órfã muito cedo, perdeu a mãe aos três anos e o pai no ano seguinte, ambos vitimados pela tuberculose. Depois dessas perdas, Auta e os irmãos foram acolhidos e criados pela avó materna, Silvina Maria da Conceição de Paula Rodrigues, carinhosamente chamada de Dindinha, em Recife, onde a menina recebeu afeto, disciplina e estímulos para o estudo e a leitura.

Desde pequena mostrou grande inclinação para as letras. Aprendeu a ler cedo, com a ajuda de um professor amigo da família, e ainda criança lia em voz alta para pessoas simples: crianças pobres, mulheres humildes e idosos, inclusive antigos escravizados. A leitura e a escuta do sofrimento alheio marcaram sua sensibilidade, moldando uma poesia de compaixão, ternura e fé.

Aos onze anos foi matriculada no Colégio São Vicente de Paula, dirigido por freiras vicentinas francesas. Estudou Francês, Inglês, Literatura, Música e Desenho, ganhando refinamento cultural e domínio da língua, o que mais tarde se revelaria na musicalidade de seus versos. Um novo golpe a atingiu aos doze anos, quando o irmão mais novo, Irineu, faleceu em um acidente causado pela explosão de um candeeiro, episódio que imprimiu em sua obra uma dor íntima sempre filtrada pela esperança religiosa.

Por volta dos quatorze anos, Auta foi diagnosticada com tuberculose. A doença obrigou-a a interromper os estudos formais e a retornar a Macaíba. Mesmo debilitada, manteve o hábito da leitura e continuou a estudar por conta própria. Aos dezesseis anos começou a escrever poemas com regularidade, canalizando as provações pessoais em linguagem lírica, emotiva e espiritualmente orientada.

Na juventude, participou de reuniões literárias e colaborou com jornais e revistas, entre eles Oásis, A República e A Tribuna. Esses espaços divulgaram seus poemas e consolidaram seu nome no meio intelectual potiguar e nordestino. Seu estilo unia simplicidade expressiva e musicalidade, com imagens de jardim, flores, noite e luz, além de símbolos cristãos como a cruz, sempre articulando dor, esperança e caridade.

Em 1900, publicou seu único livro em vida, Horto, prefaciado por Olavo Bilac. A obra causou grande impressão crítica e teve rápida aceitação, esgotando-se em pouco tempo. Horto reúne poemas em que a marca religiosa é profunda, sem sectarismo, explorando a confiança em Deus e a fraternidade como resposta ao sofrimento humano. Auta revela domínio de metro e rima, mas privilegia a emoção e o apelo ético, dando ao lirismo uma função de consolo e de elevação moral.

A doença, entretanto, avançou. Auta de Souza faleceu em 7 de fevereiro de 1901, em Natal, com apenas 24 anos. A brevidade da vida contrastou com a permanência de sua voz poética, que seguiu sendo lida, comentada e reeditada, tornando-se referência da literatura do Rio Grande do Norte e do país. Outras seleções e antologias póstumas ajudaram a fixar sua imagem de poetisa mística e solidária.

Os temas centrais de sua poesia incluem a fé, a dor redentora, a maternidade espiritual, a infância desvalida e a caridade concreta. O vocabulário é de delicadeza floral e luminosa, mas ancorado no real: há a presença de pobres, doentes e sofredores, aos quais a poetisa oferece, na palavra, um gesto de ternura. A musicalidade de seus versos, a linguagem clara e a sinceridade do sentimento explicam por que ela toca leitores de diferentes tradições religiosas.

Embora formada em ambiente católico, Auta de Souza tornou-se, ao longo do século XX, uma figura querida no movimento espírita brasileiro, sobretudo pela tonalidade de sua poesia, afinada com valores de fraternidade, esperança e consolo. Em muitos centros, seu nome foi adotado para designar iniciativas de visitação fraterna e estímulo ao Evangelho no Lar, conhecidas como Campanha Auta de Souza, que unem estudo moral e caridade prática junto às famílias e comunidades. Seus poemas são frequentemente recitados em eventos culturais e atividades assistenciais, reforçando o vínculo entre arte, fé e serviço ao próximo.

Críticos a situam entre a herança romântica tardia e influxos simbolistas, mas o que predomina é a autenticidade de uma lírica religiosa e humana, em que a experiência pessoal do sofrimento não conduz ao desespero, e sim a uma visão esperançosa da vida. Em Auta, a poesia é um horto interior: lugar de cultivo da fé, da compaixão e da beleza, mesmo sob a sombra da enfermidade.

Linha do tempo sintética 1876: nascimento em Macaíba, RN. Infância: orfandade precoce e educação com a avó em Recife; primeiras leituras e contato com o sofrimento social. 1888-1890 (adolescência): estudos com as vicentinas; morte do irmão Irineu; diagnóstico de tuberculose; retorno a Macaíba; início da produção poética. Década de 1890: colaboração em jornais e revistas; participação em círculos literários. 1900: publicação de Horto, com prefácio de Olavo Bilac. 1901: falecimento em Natal, aos 24 anos.

Legado Reconhecida como uma das vozes femininas mais significativas da poesia potiguar e brasileira de sua época, Auta de Souza segue lida por seu testemunho de fé e ternura, por sua linguagem musical e por sua fidelidade a ideais de caridade. No campo cultural, permanece estudada em escolas e universidades; no campo religioso, inspira iniciativas de visitação fraterna e de evangelização no lar; no plano humano, lembra que a palavra pode ser bálsamo e ponte de esperança entre quem sofre e quem socorre.

Leitura essencial Horto, seu livro fundamental, é a melhor porta de entrada para compreender sua espiritualidade lírica, a fusão entre dor e esperança e o compromisso de sua poesia com o bem.